» Caminhada de Serviço – Roménia 2006 – Avaliação Final
“... A caridade começa hoje...”. Hoje alguns sofrem, hoje alguém está no meio da rua, hoje alguém tem fome. O nosso serviço é para hoje, porque ontem já passou e amanhã ainda não chegou. Apenas temos hoje para fazer conhecer Jesus, para O amar, alimentar, vestir, dar-lhe conforto, para o servir.
Gherla era o destino. Por mais que imaginássemos, estávamos longe da realidade.
A Roménia foi-nos apresentada como uma país em desenvolvimento que tem por fim entrar na União Europeia, e assim a encontrámos em obras, mas longe de cumprir todos os parâmetros para fazer parte de um país da União.
Saímos de Portugal de avião com rumo traçado a Bolonha - Itália. Aí dormimos uma noite e já na companhia do contingente Italiano, seguimos de autocarro numa viagem de 24h rumo a Gherla. Eslovénia, Croácia e Hungria foram os países que nos viram passar, acabando a viagem em plena transilvânia.
Chegámos cansados mas dispostos a dar um pouco mais, a lutar por esse sopro de alegria que tanto queríamos dar. Ainda nesse dia da chegada fomos convidados a conhecer o Orfanato, o Bairro e a casa-família Marco Pólo, e as crianças que nos aguardavam ansiosamente. Logo aí percebi que para além da caminhada de serviço Roménia 2006 seria uma experiência de vida, de serviço e de muitas emoções. Cedo nos apercebemos das carências das crianças e da necessidade de estes escolherem um Pai ou uma Mãe para estar durante uma semana sempre com eles. Assim nessa mesma tarde fomos escolhidos. Cada criança automaticamente escolheu um membro do contingente para ser seu Pai.
Cada dia que passava era uma experiência única e diferente de todas as outras. Os dias começavam cedo, e as primeiras horas da manhã, depois do pequeno-almoço, eram reservadas à troca de experiências com pessoas de Gherla. Tivemos a oportunidade de ouvir a directora do Orfanato, uma Senhora responsável pela casa-família Marco Pólo, a bibliotecária de Gherla...
Os finais de tarde eram sempre passados com visitas programadas a locais extraordinários e de incrível dimensão. Visitámos templos, capelas, igrejas, sinagogas, tivemos oportunidades de falar com muitas pessoas, tirar fotos, rir, chorar e amar tudo o que nos era apresentado.
Durante os dias alternávamos o nosso trabalho entre o bairro, o orfanato e a casa-família Marco Pólo, onde cada local era um desafio novo e estimulante, onde o sopro de alegria era o serviço e onde um sorriso valia tudo.
A oportunidade única de estar com as crianças que não têm nada e que muito precisam tornou-me a mim em especial, mais Homem na busca do Homem Novo. Hoje olho para trás e vejo que o que dei foi uma gota num enorme oceano, onde a água demora a clarear.
A dificuldade da preparação das actividades para as crianças, bem como todos os seroes a preparar jogos e brincadeiras que não sabíamos se resultavam no dia seguinte, a ausência de horas para comer e dormir, valeram a alegria na cara das crianças, que contrastou em muito com a cara de tristeza com que ficaram no último dia da nossa estadia em Gherla.
A alegria contrastante com as dificuldades das crianças, a vontade de quererem dar tudo e não terem nada, a entrega e a disponibilidade de todos os que coordenaram o projecto, fazem dele uma obra de arte.
São mais que muitas as histórias que presenciei, e vivi com o sentimento de alegria profunda que me fazia ter as lágrimas bem perto dos olhos. As visitas ao paraíso da transilvânia, as histórias de verdade das crianças, e de mentira dos directores, um abraço emocionado, os piolhos a saltarem nas cabeças, os 15 euros que deram para viver, os carros funerários, o dia internacional, um país em obras, uma vida diferente...
Cai cinza húmida do céu. Toda a paisagem se tornou misteriosa. Parece que vai anoitecer rapidamente, mas não, ainda há bastante luz do dia, é uma luz suspensa, como se o transportador dela tivesse parado para dar tempo de chegar a Gherla. É um favor que o viajante vai ficar a dever até ao fim da vida. A esta hora do dia, sob a luz miraculosa, não pode haver paisagem que se compare.
A estrada, abandonada já segue para Gherla, faz uma larga bifurcação, e isto dito assim não é nada, não pode representar a bruma que paira sobre os campos, as arvores, e sobretudo a luz, a luz indefinível que é quase só o que resta da passagem dela, não sabe o viajante explicar. Declare que não sabe, confesse que não pode. Um sorriso uma das mais comoventes lembranças do viajante...
No último dia a criança que me escolheu como Pai, o Roberto, pediu me a morada para me escrever entre frases com um misto de português, italiano, Inglês e romeno lá entendi o que queria dizer. Depois de pensar um pouco lá lhe dei a morada ao rapaz que sempre me identificou como Pai, e sempre me pediu um “ amigos para siempre”. Prometeu com as lágrimas nos olhos que me escrevia no dia a seguir, e que embora lavado em lágrimas estava contente porque agora tinha um amigo. Na confusão da derradeira despedida lá lhe prometi que para o ano voltava para o ver, e pedi-lhe para estudar e tirar boas notas.
Serão os nossos pensamentos vagos? Como podemos dizer algo que não sabemos se podemos cumprir?
Até hoje e já passados um mês e meio ainda não recebi nenhuma carta do Roberto. Ainda não houve um dia em que não pensasse o que será feito dele...
Hoje sinto-me mais capaz, mais perto do Homem Novo.
Fui escolhido para estar presente em algo belo que me faz pensar na verdadeira dimensão do serviço, e na capacidade de lhe responder.
Obrigado a todos que fizeram da minha caminhada de serviço uma realidade.
Obrigado Roberto porque me fazes acreditar.
Garça-Real
Miguel Ferrão – 170 Sertã
Região de Portalegre e Castelo Branco
Setembro de 2006
Gherla era o destino. Por mais que imaginássemos, estávamos longe da realidade.
A Roménia foi-nos apresentada como uma país em desenvolvimento que tem por fim entrar na União Europeia, e assim a encontrámos em obras, mas longe de cumprir todos os parâmetros para fazer parte de um país da União.
Saímos de Portugal de avião com rumo traçado a Bolonha - Itália. Aí dormimos uma noite e já na companhia do contingente Italiano, seguimos de autocarro numa viagem de 24h rumo a Gherla. Eslovénia, Croácia e Hungria foram os países que nos viram passar, acabando a viagem em plena transilvânia.
Chegámos cansados mas dispostos a dar um pouco mais, a lutar por esse sopro de alegria que tanto queríamos dar. Ainda nesse dia da chegada fomos convidados a conhecer o Orfanato, o Bairro e a casa-família Marco Pólo, e as crianças que nos aguardavam ansiosamente. Logo aí percebi que para além da caminhada de serviço Roménia 2006 seria uma experiência de vida, de serviço e de muitas emoções. Cedo nos apercebemos das carências das crianças e da necessidade de estes escolherem um Pai ou uma Mãe para estar durante uma semana sempre com eles. Assim nessa mesma tarde fomos escolhidos. Cada criança automaticamente escolheu um membro do contingente para ser seu Pai.
Cada dia que passava era uma experiência única e diferente de todas as outras. Os dias começavam cedo, e as primeiras horas da manhã, depois do pequeno-almoço, eram reservadas à troca de experiências com pessoas de Gherla. Tivemos a oportunidade de ouvir a directora do Orfanato, uma Senhora responsável pela casa-família Marco Pólo, a bibliotecária de Gherla...
Os finais de tarde eram sempre passados com visitas programadas a locais extraordinários e de incrível dimensão. Visitámos templos, capelas, igrejas, sinagogas, tivemos oportunidades de falar com muitas pessoas, tirar fotos, rir, chorar e amar tudo o que nos era apresentado.
Durante os dias alternávamos o nosso trabalho entre o bairro, o orfanato e a casa-família Marco Pólo, onde cada local era um desafio novo e estimulante, onde o sopro de alegria era o serviço e onde um sorriso valia tudo.
A oportunidade única de estar com as crianças que não têm nada e que muito precisam tornou-me a mim em especial, mais Homem na busca do Homem Novo. Hoje olho para trás e vejo que o que dei foi uma gota num enorme oceano, onde a água demora a clarear.
A dificuldade da preparação das actividades para as crianças, bem como todos os seroes a preparar jogos e brincadeiras que não sabíamos se resultavam no dia seguinte, a ausência de horas para comer e dormir, valeram a alegria na cara das crianças, que contrastou em muito com a cara de tristeza com que ficaram no último dia da nossa estadia em Gherla.
A alegria contrastante com as dificuldades das crianças, a vontade de quererem dar tudo e não terem nada, a entrega e a disponibilidade de todos os que coordenaram o projecto, fazem dele uma obra de arte.
São mais que muitas as histórias que presenciei, e vivi com o sentimento de alegria profunda que me fazia ter as lágrimas bem perto dos olhos. As visitas ao paraíso da transilvânia, as histórias de verdade das crianças, e de mentira dos directores, um abraço emocionado, os piolhos a saltarem nas cabeças, os 15 euros que deram para viver, os carros funerários, o dia internacional, um país em obras, uma vida diferente...
Cai cinza húmida do céu. Toda a paisagem se tornou misteriosa. Parece que vai anoitecer rapidamente, mas não, ainda há bastante luz do dia, é uma luz suspensa, como se o transportador dela tivesse parado para dar tempo de chegar a Gherla. É um favor que o viajante vai ficar a dever até ao fim da vida. A esta hora do dia, sob a luz miraculosa, não pode haver paisagem que se compare.
A estrada, abandonada já segue para Gherla, faz uma larga bifurcação, e isto dito assim não é nada, não pode representar a bruma que paira sobre os campos, as arvores, e sobretudo a luz, a luz indefinível que é quase só o que resta da passagem dela, não sabe o viajante explicar. Declare que não sabe, confesse que não pode. Um sorriso uma das mais comoventes lembranças do viajante...
No último dia a criança que me escolheu como Pai, o Roberto, pediu me a morada para me escrever entre frases com um misto de português, italiano, Inglês e romeno lá entendi o que queria dizer. Depois de pensar um pouco lá lhe dei a morada ao rapaz que sempre me identificou como Pai, e sempre me pediu um “ amigos para siempre”. Prometeu com as lágrimas nos olhos que me escrevia no dia a seguir, e que embora lavado em lágrimas estava contente porque agora tinha um amigo. Na confusão da derradeira despedida lá lhe prometi que para o ano voltava para o ver, e pedi-lhe para estudar e tirar boas notas.
Serão os nossos pensamentos vagos? Como podemos dizer algo que não sabemos se podemos cumprir?
Até hoje e já passados um mês e meio ainda não recebi nenhuma carta do Roberto. Ainda não houve um dia em que não pensasse o que será feito dele...
Hoje sinto-me mais capaz, mais perto do Homem Novo.
Fui escolhido para estar presente em algo belo que me faz pensar na verdadeira dimensão do serviço, e na capacidade de lhe responder.
Obrigado a todos que fizeram da minha caminhada de serviço uma realidade.
Obrigado Roberto porque me fazes acreditar.
Garça-Real
Miguel Ferrão – 170 Sertã
Região de Portalegre e Castelo Branco
Setembro de 2006
